-Esse texto é uma exceção ao que eu proponho como escopo pra esse blog. Mas não sai tanto dos trilhos assim. É mais um ensaio, minha visão e impressão, do que a pesquisa e estudo que tento empenhar nos demais posts-
"Todos os pecados têm origem num sentido de
inferioridade, também chamado vaidade."
A frase acima tem mais de uma tradução. O original, em
italiano, tem a palavra "vaidade" como vaidade mesmo. Estranhamente
publicaram em alguns lugares como ambição. E é isso.
Eu nunca achei legal a postura de soberba que alguns
aficionados do OSR têm, em geral, com os demais tipos de RPG. Pra mim sempre
foi tangente ali a sensação de tiração de onda. Os blogs agressivos, os livros
com artes hostis, o grognardismo saudosista, um apreço ao bizarro e ao
intangível, enfim, muita coisa que evoca o mesmo sentimento excludente que
aquela galera ultra cult da arte moderna as vezes vacila em deixar limitada ao
selecionado clube deles. Aliás, vou deixar os artistas em paz, porque um monte
de gente dos mais variados temas faz isso. É gatekeeping o termo? Eu mesmo fazia e as vezes faço isso. E é por
isso que eu atesto que rola e me sinto incomodado. Porque rola comigo.
Isso rola em outros RPG's, jogos e tudo que é coisa. Mas
vamos falar do OSR porque o fato de outros fazerem não invalida nada.
Pra mim isso era a única coisa zuada que eu via, as vezes,
no OSR. De resto eu via muita coisa foda, muita coisa que vem me fascinando nos
últimos meses. Várias ideias do Primer estabeleceram verdadeiros paradigmas pra
aquilo que vem sendo"meu estilo de jogo favorito" (sou eclético). Eu
particularmente gosto da ideia de desafiar o jogador e não a ficha (há alguns
pingos nos i's que eu gostaria de colocar aqui, mas isso é pra outro post).
Isso tudo pra falar que tem um autor de OSR que sempre foi
um humano lixo e tals. O tal do Zak Smith. Eu acho os livros dele bem bons.
O que eu acho do cara (antes de cabalmente e factualmente
ficar óbvio que ele é uma tragédia encarnada ):
ele era aquele joe que curtia
fazer umas merdas, mas sempre com um contrapeso pras essas merda guardado na
manga. Basicamente ele gostava de ser esse cara que incomodava o status quo,
atraia críticas e com a carta de counterspell ele mandava geral rever seus
conceitos e aproveitava pra dar uma humilhada online. "Ele trata mal
mulheres, mas mora com strippers e marginalizadas". Esse tipo de coisa.
Pra mim parecia até que ele fazia uma engenharia social pra que as coisas
ficassem desse jeito. Sei lá, o cara é todo zuado. Vai saber.
Nessa ele arrumou tretas homéricas em fóruns que eu nem
entendi a cronologia. Mas é muita treta mermo. O Patrick Stuart até organizou
um dossiê da parada toda.

E pra mim Z. Smith era isso, um doido chato e detestável que
escrevia uma porrada de coisa e brigava com geral. Então foda-se. Comprava os livros porque
achava eles bons. E pessoalmente eu acho eles bons, ainda, mesmo com a absoluta
certeza que o autor é um verme absoluto.
E o que eu achava dos livros dele: são livros bem diferentes
do que vemos por aí. Tanto editorialmente, quanto em conteúdo. A arte era
puxada pra esse lado mais moderno e distante da arte figurativa que povoa
99,9999999% dos livros de RPG. Ele escreve bem, é legal ler as regras e o
livro, a prosa é rápida. Prática. Lembra que na 3.x as cidades tinham Humano
90% Elfo 6% Anão 3% Orc 1%? Pra ele isso era lixo. Perda de tempo. Somava
nada e encorajava o DM a ser
palestrinha.
A ideia era que - se
a descrição de 3 páginas de uma tribo de orcs bárbaros no fim não passasse
alguma ideia além da que "orcs bárbaros" passariam - então é só filler. Material que você vai ler
e se sentir compelido a atirar nos jogadores porque você gastou uma boa parte
do seu tempo lendo e que, por mais incrível que fosse de ler, aquilo pouco
interessa os jogadores durante a sessão.
Os recursos descritivos pra ele eram os de sensações
cotidianas, que ligassem experiências da vida ordinária normal que temos com as
experiências nada comuns que as aventuras de RPG tem. A textura de um item
mágico seria: "um ovo esveradeado, que ao passar a mão parece que você
está acariciando a pele fina e careca de um bebê", meio edgy né? Dá uma
embrulhada né? Porque nós conhecemos a sensação e isso é sinestesicamente estranho,
não sei explicar. Ele era bom nisso. Praticidade e sensações.
Mas leia o exemplo do ovo, meio "edgy" né? Sempre
flertando com o moralmente pesado, mas se você ousasse atacar algum
posicionamento dele o "counterspell" já estava engatilhado. E na pior
das hipóteses, se encurralado, rolaria aquele velho Gatekeeping ~você não
entende porque você não tem sensibilidade etc~. Tinha muito material dele que
se esforçava mais em ser estranho e bizarro do que prático e aditivo, e sempre
recaía nesse Gatekeeping aí. No mais, nenhum autor acerta 100%.
Enfim, no balanço geral eu, pessoalmente, considero ele um
bom autor.
Tá, e aí?
Rolou isso aqui - clique pra ver (o Shinken sintetizou bem o bagulho, se você não tá ligado disso, então recomendo que leia isso tudo antes de prosseguir a leitura, ou até mesmo reinicie).
Não foi nenhuma surpresa pra mim. Fiquei triste pela Mandy e pelas pessoas com quem ele -agora sem nenhuma sombra de dúvidas- avacalhou. Nunca foi dúvida pra mim, mas sei lá, ver o fato escrito na pedra mudou minha percepção.
E aí que eu espero que ele não consiga mais fazer mal a
ninguém e que responda pelo seus atos.
Acho que esse exílio online é algo que vai doer pra ele, ele
é vaidoso demais. Puro achismo meu, tenho nenhuma base pra embasar isso aí, mas
isso aqui não é um blog científico.
Acho que aquilo que se chamaria de "legado" dele
lentamente vai fagocitar o nome desse traste. Ele realmente tinha abordagens
transformadoras pro RPG (na minha opinião), mas essas abordagens não eram DELE,
ele as comunicava muito bem.
Reconheço que gostava de ler os livros dele e que não vou
ler Demon City (livro em FC que tava pra lançar). Já deu. E também não era meu
autor favorito.
E no fim eu também tô triste comigo mesmo. Porque quando li
Frostbitten (livro dele sobre amazonas em terras gélidas) eu pensei
"caralho, que merda, vai ter altos imbecis felizes de matar amazonas
feministas em suas mesas, pra que oferecer isso?", é porque talvez a ideia do
livro era ficar feliz em matar amazonas feministas MESMO. Que lixo.
E a propósito, a frase do inicio do texto é do Cesare Pavesi. Um incel misógino italiano do século passado. Um vermezinho bem infeliz.
Não vou queimar livros, acho viagem. Mas sei lá, tá tudo bem foda. Se um dia eu for tirar da prateleira ao menos minhas convicções me permitirão ler com crítica.
Comentários
Postar um comentário