quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

"Boobplate", realidade ou balela?

Por Eduardo Fonseca Vieira

Representação feminina de livro monástico, no boobs
Lá pelos idos de 2013 uma moça chamada Emily Asher-Perrin destacou o fenômeno dos "seios envelopados" exibidos nas variadas representações que temos aí, cosplays, artes, games, séries e livros. Emily fez uma publicação comentando sobre a popularidade das "boob plates" em feiras medievais e eventos de cosplay e logo em seguida questiona a viabilidade prática que essas armaduras voluptuosas teriam.

O primeiro argumento do questionamento é sobre o conforto e a vestibilidade de armaduras com essas formas. Aparentemente a autora tem razão, as armaduras de placas eram pesadas e necessitavam de camadas de fivelas e revestimentos internos para distribuir o peso, reduzir a abrasão e atenuar a transmissão de impactos (BLAIR, 1959).

Alan Williams, no seu livro The Knight and the Blast Furnace (2003), corrobora com essa argumentação, na detalhadíssima obra o autor enaltece a necessidade de acolchoamento e demais adereços para reduzir a taxa transmissão de esforços entre a placa impactada e o corpo do soldado. Esse é um conceito de certa forma intuitivo, se houver algum corpo para absorver parte do impacto e reduzir a energia cinética transferida ao indivíduo, é razoável imaginar que o dano será menor. Não por acaso os carros de hoje em dia deformam tanto nas suas colisões; é justamente para que a deformação absorva a energia que seria transmitida aos passageiros ( evite que eles se esborrachem contra o próprio carro). Vários estudos modernos sobre proteção individual enaltecem a importância do amortecimento, muitos desses são voltados a equipamentos de futebol americano, onde os pads devem ser acolchoados para reduzir a abrasão e o impacto (KNAPIK; REYNOLDS; HARMAN, 2004). A abrasão é um problema fácil de imaginar, pense que sua mochila tivesse alças de correntes metálicas, seria extremamente desconfortável (e certamente geraria lesões) carregar ela por aí, então é necessário que se tenha dispositivos para reduzir a abrasão entre os corpos. A transmissão de impacto é mais simples ainda, basta observar um airbag.

Não confunda o rondel com seios
Seria improvável que essas armaduras bonitas que encapam os seios tivessem espaço para abrigar esses dispositivos de proteção. É claro que um artista pode sim representar uma armadura assim e que tenha espaço para os preenchimentos, todavia não é o que se vê por aí e nem o foco da queixa deste texto.

Outro aspecto que Emily aponta é a falha de design que seios em armaduras seriam. Não que sejam feias, nada disso, o problema é que colocar protuberâncias na armadura na altura do busto vai contra a proposta do formato que essas armaduras tinham. De acordo com Williams (2003) e Goll (2013), uma análise dos manuais de forja e peças de metal da idade média/renascença comprovam, isso mesmo, não é que indicam, corroboram ou mostram, eles de facto comprovam que a forma das armaduras era feita para que projéteis escapassem tangencialmente pelos lados. Existe toda uma modelagem física que embasa isso (apesar dos artesãos medievais não usarem esses modelos propriamente, eles sabiam por intuição e experimentação). E apesar do princípio nos parecer bastante óbvio, os gregos e romanos não aplicavam esse conceito em suas armaduras, por isso muitas vezes os peitorais emolduravam parte do busto e do abdômen. Apesar de aparentar mais estético, segundo Williams, os peitorais greco romanos eram muito menos eficientes que as armaduras em bojo do período renascentista, uma vez que a curvatura certa no torso servia justamente para desviar objetos para fora do corpo.

Ter um par de seios no meio da armadura gera justamente o efeito contrário: uma sela no meio do busto faz com que golpes se desviem para seu coração ou outra parte vulnerável do torso. Além disso as junções das formas geram acúmulos de tensões que quando transmitidas podem afligir mais o indivíduo. Os efeitos dessas tensões podem se depreender em dois fatores, a área de contato entre o soldado e a armadura e o campo de distribuição de tensões na armadura. Para entender isso faça o seguinte: coloque um copo sobre sua barriga e pressione, depois coloque um prato e faça o mesmo, a sensação do copo é mais penetrante porque a área de contato é menor e a pressão aumenta. Um par de seios geraria efeito semelhante. O segundo efeito é um pouco mais complexo, Goll (2013) na sua tese de doutorado mostra como a forma abobadada do torso transmite os esforços de forma uniforme ao longo do torso. Os engenheiros civis conhecem bem esse princípio, é o mesmo que permite a cúpula das grandes catedrais terem sido erguidas, os esforços perpendiculares caminham convenientemente paralelos a geometria do bojo, não "penetrando" na armadura. Ao inserir seios a geometria estaria comprometida e isso geraria concentrações de tensão e maior sensação de impacto e perfuração nos golpes.

De fato existem motivos para não se fazer seios nas armaduras. Eles realmente atrapalhariam.

É importante deixar claro que isso não é uma norma para "ei não faça seu personagem com armaduras com seios". Na verdade existem representações e espécimes verossímeis de armaduras com peito, porém em sua grande parte eram artigos cerimoniais. Além disso haviam sim ajustes nas formas da armadura para comportar os volumes que algumas moças pudessem vir a ter (ei moça você tem peitos muito grandes, não vai dar pra vestir armadura). E claro, RPG não é ciência, e seu personagem é seu, logo sinta-se livre para imagina-lo e concebe-lo da forma que lhe interessar. Todavia num momento em que as platekinis e demais female fantasy armors geram tanto questionamento é justo debater se armaduras voluptuosas são originadas no fanservice ou se há sim um respaldo histórico e prático nas suas representações.

O artigo contempla os aspectos técnicos e científicos acerca das armaduras, porém não contemplou uma análise estatística ou histórica para analisar se as boob plates são um fenômeno de fanservice com raízes no machismo ainda imperante (porém cada dia menor) do universo geek ou se é uma representação legítima que as minas aprovam (não é meu lugar de fala). Vai além da compreensão do autor o tema, mas debates no reddit possuem comentários de moças defendendo que há uma diferença entre chanmail bikinis e as boob plates, as segundas sendo um artigo estético não só aceitável como muitas vezes desejável. Enfim, há mais pesquisa a ser feita. 

Seguimos jogando, criando, debatendo, desenhando e interpretando. Você sempre vai poder fazer seu personagem como quiser, mas é sempre bom refletir a cada criação nossa e assim enriquecer nossos jogos e representações. Espero que a leitura tenha sido proveitosa. Busquemos conhecimento.


Referência

1. Asher-Perrin, Emily 2013, It’s Time to Retire “Boob Plate” Armor. Because It Would Kill You.
2. Goll, Matthias 2013, Iron Documents Interdisciplinary studies on the technology of late medieval European plate armour production between 1350 and 1500, PhD Heidelberg

3. Blair, Claude 1959, European Armour circa 1066 to circa 1700


  1. 4. Knapik J. J.
  2. Reynolds K. L.
  3. Harman E. 
2004 Soldier load carriage: historical, physiological, biomechanical, and medical aspects. Mil. Med. 1694556.
5. Graham N. AskewFederico FormentiAlberto E. Minetti 2011, Limitations imposed by wearing armour on Medieval soldiers' locomotor performance

6. Williams, Adam 2003, The Knight and The Blast Furnace A History of the Metallurgy of Armour in Middleages & Early Modern Period

Um comentário:

  1. Gostei do texto e do assunto. Caso um dia queira fazer uma análise histórica, posso apontar uma ilustração "boobplate" de 1843* e que um retrato da Joanna D'arc do século 15** a mostra sem boobplate de qualquer forma.
    *
    https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Monvoisin,_Raymond_-_Juana_de_Arco_-ost_142x101_PVergara_f02.jpg
    **
    https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Joan_of_Arc_miniature_graded.jpg

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