terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Vamos Falar De Tendência

 (Vá para a parte entitulada "O Caos e o Mal" se não estiver afim de ler sobre filosofia)

Satan Summoning His Legions - Thomas Laurence

“O céu estrelado sobre mim e a Lei Moral dentro de mim"

Em algum momento da vida rpgística o indivíduo se deparou com o dilema da moralidade. Um dos problemas do dilema da moralidade é que ele não é bem resolvido nem no mundo real. Veja bem, um monte de gente bem foda já tentou resolver isso aí e ao que parece a questão sempre começa a bater numa parede invisível chamada racionalidade (na qual nós humanos somos escravos). Ou seja, o bagulho é tenso.

Mas isso não quer dizer que não dê para estabelecer umas regras para a boa convivência. As próprias leis e Constituições dos países estão aí para dizer que matar, roubar, mentir e outras canalhices são vacilos que não devemos sair cometendo por aí. Tem um monte de livro que vai lhe contar a história da moralidade de forma melhor que “esse post de um blog sobre um jogo que simula uma realidade fictícia coletiva”, mas, numa análise bem sintética e materialista, o que rolou foi que basicamente a galera notou que todo mundo se dava melhor se umas regras fossem estabelecidas e ninguém saísse se matando, aí foram aprimorando essas regras até chegar a coisas como religião e imposto de renda.

A história da moral se entrelaça muito com a do “contrato social”, mas não deve ser confundida. Uma questão é epistemológica ou ontológica, ou seja, vai bem na raiz da existência filosófica das paradas, já a outra, no caso o contrato social, é a justificativa para as pessoas criarem o Estado. Sim, existem autores que já desconstruíram ou incrementaram o lance do “contrato social”, mas não tá no escopo desse texto ir tão longe. O importante é saber que são coisas que se entrelaçam ao longo da história, mas são diferentes.

A moral é uma parada bizarra. Sempre vai ter aquele lance do: o que é certo pra um é errado pra outro e vice versa, e versa virse. Então uma teoria de grande aceitação é chamada de Regra Áurea[1], que é o velho “cada um deve tratar os outros como gostaria que ele próprio fosse tratado “, enfim, é um pilar moral (porém muitas vezes não aplicado) de diversas religiões do mundo, e até que faz bastante sentido. Se ninguém ferrar com ninguém, geral ficará de boas.

Rola umas implicâncias aí, uma pessoa bem sinistra chamada Kant anunciou um tal de Imperativo Categórico (que muitas vezes é confundido com a Regra Áurea). O Imperativo é basicamente um jeito mais foda de anunciar a Regra Áurea, simplesmente porque engloba mais casos e porque incontáveis autores tentam reformulá-lo para depois acabar voltando nele mesmo. O foda dessa área é que ela fica num limbo de humanas e exatas e que um monte de autores acaba enxergando a questão de acordo com a sua vivência. Mas supondo que Kant está certo, o imperativo diz basicamente que “o que você toma como lei para as suas ações, deve ser também uma lei pra todo mundo, universal”.

“Ah! Mas então e se eu disser que a minha lei é eu poder matar os outros à vontade? Por esse princípio do Kant eu não estarei sendo mau, já que eu assumi que a lei é matar os outros! ”.

Não fera, pela ideia do Kant você estaria sendo mau sim, pois não tem essa de lei só pra você, a lei tem que ser universal, e você não gostaria que a lei envolvesse que os outros também lhe matassem a vontade. Essa é a ideia, é quando você quer que a lei valha só para você, é o egoísmo, é a falta de compaixão (tá vendo como todos os princípios morais elegantemente convertem para o Imperativo Categórico do Kant?) que implica a quebra da moral. Você fere a moral quando você fere o Imperativo. A maldade mora no ato de ferir o Imperativo.

Óbvio que nem sempre vai dar para chegar numa solução lógica e simples se a ação de um indivíduo é imoral ou não. A vida real não é feita de preto no branco, e por isso precisamos de juízes (não que adiante muita coisa) e no caso do RPG de DM’s.

A parte foda começa agora. Tendo em vista que moralidade é um tema ultra mal resolvido e bizarro, umas feras aí decidiram criar um bagulho chamado TENDÊNCIA. Sim aquele lance de caótico e mau, ou leal e bom. É provável que eles tenham criado essas categorias justamente para tentar simplificar as coisas, mas a verdade é que o sistema incomodou e ainda incomoda muita gente e por isso diversos sistemas simplesmente não usam classificações de moralidade. Mas o fato de desagradar um punhado de gente não desencorajou as feras a incrementar ainda mais a coisa toda. No fim os próprios cenários, cosmologias e até mesmo mecânicas de sistemas famosos como o próprio D&D passaram a depender desse bagulho chamado tendência.

O Caos e o Mal

Quando o D&D estava sendo fundado, ou seja, lá na raiz, haviam apenas três tendências: caos, ordem ou neutralidade. Os conceitos dessas tendências foram inspirados em romances e novelas de autores gringos e são bem similares aos que conhecemos hoje em dia. A turma da ordem acredita que existe um ordenamento no universo, que nada é por acaso ou sei lá (inclusive a definição de ordem dos livros, numa luz mais filosófica, é bem questionável), que se todos cumprirem as leis tudo funcionará melhor. De certa forma a visão de ordem dos livros convergia para uma ideia de que o bem coletivo é mais importante que o bem de poucos (o que conversa muito bem com a Regra Áurea ou o Imperativo).

Já a galera do caos acredita que tudo é caos e por acaso. Não existe essa de “destino”, e o acaso é a regra primordial. A vida tem que ser vivida na base do “se vira” e cabe a cada um se virar melhor que o outro, custe o que custar.

Beleza, temos nosso yin e nosso yang certo? Não. A bagunça piora pelo fato que caos e ordem, definidos dessa forma, não são opostos. Fisicamente falando, caos e ordem são sim polos opostos, e numa ótica moralista é razoável dizer que “altruísmo e egoísmo” ou “bondade e maldade” também sejam. Porém a dicotomia de que o universo é regido por acaso e aleatoriedade ou regras e leis não teria porque implicar em comportamentos que as tendências estabelecem. Eu posso muito bem acreditar que o universo é aleatório e descontrolado e nem por isso ser egoísta e não pensar nos outros. Eu posso achar que existem leis e destino e ainda assim tentar trilhar o meu caminho.
Diante dessa contradição, em 1977, a turma da ordem/caos decidiu adicionar mais um eixo no gráfico, o eixo do bem/mal. Achando que isso ia resolver, a coisa ficou é mais confusa. Agora havia muitos mais overlaps[2], mais espaço para interpretações e um monte de contradições lógicas. A nova leitura não desassociou o egoísmo ao caos, criando uma sobreposição com a maldade, nem o altruísmo à ordem, criando outra sobreposição com a bondade. E há quem diga que essa nova abordagem criou um espectro de visão política, personagens leais acreditam em governos e leis e em algo como sei lá, um Estado de Direito, e os caóticos acreditam em anarquia, liberdade, ou livre mercado. Tudo isso temperado com parâmetros morais.

Achou estranha essa abordagem?

Então para e pensa quantas vezes você mesmo discutiu, ou viu alguém discutir a tendência de um personagem famoso. “Ah, a Cersei do GoT é Leal e Neutra, porque ela acredita num governo tal e só defende a família dela. ” “Claro que não, ela é rainha ilegítima e tortura, Caótica e Má”. E por aí vai.

Rapaz, toda vez que uma discussão dessa se inicia, um mico leão dourado em extinção morre de desgosto na Mata Atlântica. Tamanha a falta de lógica, ou excesso de contradição. Vamos lá: o sujeito me pega um conceito que é ontologicamente ou epistemologicamente confuso (moral), mistura com dois conceitos que não são dicotômicos no campo comportamental (ordem e caos), mistura com associações abstratas de visão política e de Estado (lei=ordem, anarquia=caos) e tem ousadia e falta de vergonha suficiente para dar um carimbo definitivo da lei moral que norteia as ações de um indivíduo baseando-se em alguns episódios e situações limite na qual o indivíduo foi exposto. Parabéns.

Existe alguma utilidade para tendência, bom, sim, mas minhas leituras e mesas me mostraram que não é essa. Num sistema contraditório não pode haver debate galera. Sempre se lembre que o cara que é um anarquista fervoroso é “leal em ser anarquista”, é caótico e leal ao mesmo tempo. Tendência é uma contradição lógica.

Quer piorar? Lembre que existe a tendência Neutro, no ponto 0 do eixo do Bem e do Mal. O bem seria a compaixão e amor pelo próximo, o respeito aos demais e a vida. O mal seria a falta dessas coisas. Tá aí dois opostos, certo? Então você tem a neutralidade, que seriam personagens que não fazem suas escolhas em juízos de bem ou mal, eles são simplesmente neutros. Mas se você investigar um pouquinho mais fundo vai ver que o que difere as pessoas boas das más é que as más não ligam de ferrar com os outros para conseguir o que querem (lembra do Imperativo Categórico? O mau não liga de rompê-lo). Obviamente existem graus de ferração com o próximo, e nesses graus haverá linhas que os bons não cruzariam pois possuem ideias. Pessoas más não compartilham esses ideais. E nesse momento neutralidade perde sentido. Ou você tem certos ideais ou não, não tem como romper o Imperativo Categórico de leve, ou rompe ou não rompe. A neutralidade não passa de uma faceta do Mal. Não existe um limbo.

Mas e aí, se o cara fere o Imperativo ou vacila alguma vez ele é considerado mau desde já? Bom, isso é bem complicado. O mundo real não possui um tribunal de moralidade formal, mas aparentemente a sociedade rotula alguém como mau ou bom numa espécie de média de vacilos que o sujeito comete ao longo da vida. É complexo responder, mas quantos atos vis o sujeito deve cometer para ser finalmente considerado “mau”? Talvez não haja resposta certa. É bem subjetivo, muitas vezes é injusto, mas parece razoável dizer que um indivíduo é visto pela sociedade como mau se cometer vários crimes e bom se mostrar compaixão e generosidade. E olha como isso é maluco, estamos falando do sujeito ou da forma como o sujeito é visto? Isso nos leva a outra pergunta fundamental. No julgamento da tendência, vale o desfecho ou a intenção por trás dos atos? Se você for um demônio por dentro, mas fizer o bem para os outros qual será sua tendência?

Por exemplo, os jogadores decidem doar moedas ao orfanato apenas para que o clérigo conceda aos heróis uma audiência perante o rei, eu sou bom ou mau? Tendência é um conceito idealista ou pragmático?

Os designers não têm resposta para essa pergunta. Talvez a melhor resposta que já vi foi no Livro Básico de Pathfinder, em que ele próprio diz que tendência não é uma camisa de força e talvez sirva para nortear ações de seres mais rasos como PdM’s e monstros avulsos (o que não consiste bem numa reposta, mas tá valendo). Por outro lado, seria uma pelação de saco se o jogo virasse uma inquisição de avaliação de quão cruel ou boa foi a ação dos jogadores, ninguém merece um jogo assim.

Juízes Universais

Se você achou que a treta da Tendência estava acabada você se engana. Temos ainda mais um problema.

Afinal, quem é que julga o que é certo ou é errado? O Book of Vile Darkness da terceira edição já inicia o discurso com essa ótica relativista do mal. Na cabeça do indivíduo ele pode não estar rompendo com o Imperativo Categórico ou com a Regra Áurea, mas no ponto de vista de outro ele foi um grande desgraçado. Quem está certo? Os kobolds que assaltam a vila para não morrer de fome e salvar sua prole são necessariamente maus? Enfim, quem é o juiz definitivo para dizer algo sobre isso?[3]

No D&D há duas autoridades para julgar a moralidade das suas ações. As sociedades e os deuses. Mas nenhuma delas presta na verdade. O que? Sim isso mesmo, nenhuma delas prestaria como bom juiz simplesmente porque tanto deuses quanto as sociedades costumam ter tendência no D&D. E mesmo um deus sendo caótico e mau e a sociedade orc tendo tendência similar, na cabeça deles tá tudo certo. Se você for olhar numa ótica mais crítica, quem deu o rótulo de caótico e mau para os orcs foram os elfos e humanos.

“Ah, mas dá para ser mau por ser mau, a maldade por essência, o caos, o Curinga. ” Sim, isso são cenários de insanidade (psicopatas) ou de metafísica (Curinga e os demônios), eles simplesmente não existem na racionalidade. Na verdade, em ambos cenários estamos estabelecendo coisas que não existem, seja o delírio do insano, seja a ficção da metafísica. Tolkien mesmo dizia que Sauron ou Morgoth eram contraditórios porque ao destruírem tudo eles destruiriam a si mesmos.[4]

É engraçado como na cosmologia do D&D bem, mal, ordem e caos são tratados como coisas mensuráveis e físicas. Perceptíveis como massa ou cor. São palpáveis e possuem real impacto. Os diabos e demônios travam batalhas infinitas em nome da ordem ou do caos. Essa “matéria” condena para onde seu personagem vai após a morte. Deuses são manifestações do bem, do mal, do caos, que seja. Muitas vezes são os verdadeiros Curingas, são escravos da essência que essas tendências doutrinam, Lolth só quer ver geral se traindo e se matando sabe-se lá por que.

Mas aí que tá, moralidade, na verdade, não tem a ver com deuses ou sociedades. Moralidade é uma lei universal, tá acima disso. E apenas criando entidades fictícias como deuses malignos conseguimos conceber a maldade pela maldade, sem fim nenhum. Sem criar uma ficção ou estabelecer um desvio de conduta (que ainda assim as vezes sabem reconhecer que estão fazendo merda) o Imperativo Categórico permanece.

O que fazer com as Tendências

O foda é que num universo fantástico como D&D a tendência faz parte da cosmologia.

Muita gente já opta por jogar na zona cinza, evoca os preceitos de relativismo moral e segue a vida. Mas muita gente usa tendência como camisa de força. Sim a mesa é sua, não existe “se divertir errado”, mas é bem provável que seguir tendência à risca vá gerar alguma treta na sua mesa cedo ou tarde. Uma coisa é ter tendência ali nas entidades divinas inacessíveis que raramente interferem no jogo, outra é ter as várias decisões dos personagens amarradas a esse sistema. Vez por outra pode-se ler em fóruns dúvidas como “devo punir jogadores que não agem de acordo com suas tendências? ”, “mudar de tendência tira xp? ” e por aí vai.

Na boa, tendência serve pra rotular aquele goblin genérico de encontro aleatório ou a sacerdotisa boazinha da vila. Ou pra ver se algumas magias ou itens mágicos funcionam (a galera da 5e até abandonou isso, sacando que era furada). NPC’s bem feitos costumam ter motivações coerentes e normalmente possuem relações mais complexas que o rótulo de tendência consegue fornecer. Nada mais entediante que o vilão da sua campanha só querer fazer o mal porque, ah, ele é mal. E ao criar essa matriz complexa de intenções e desfechos você logo vê que o castelinho de cartas do bom, leal, caótico e mau rapidamente desaba.

O próximo texto tratará de quando os jogadores resolvem criar personagens maus e porque isso costuma dar ruim em um monte de mesas (em parte pelo mau uso do conceito bizarro que é tendência).

Enquanto isso, gostaria que lessem o mantra e repetissem mentalmente:

TENDÊNCIA
NÃO
SERVE
PRA
DITAR
AÇÃO
DE
NINGUÉM.


E por favor, não discutam a tendência de personagens fictícios. Suas vidas e tempos valem mais que isso. Os micos leões agradecem.


[1] Também conhecida como Regra de Ouro, ou Lei da Reciprocidade, não confundir com a Regra de Ouro dos RPG’s (a que a palavra do DM é a final).
[2] Zona em que dois conceitos ou ideias se sobrepõem ou se mesclam
[3] Na verdade, o Imperativo Categórico diria que os Kobolds não ficariam felizes se outros bandos os atacassem quando tivessem fome, logo eles estariam sim fazendo merda. O próprio Imperativo carrega dentro de si um juiz universal. É, Kant era um cara foda, mas isso mostra como a fantasia e a metafísica preveem cenários que o Imperativo é rompido, a racionalidade dos Kobolds talvez não seja equivalente a nossa, e logo a Lei Moral dentro deles funcione de outra forma. O filósofo alemão era tão ninja que ele mesmo tratou de como somente na metafísica, na ficção, ou na insanidade, e não no real e na racionalidade, o Imperativo poderia ser quebrado. Impressionante.
[4] Sauron e Morgoth foram os dois maiores vilões na mitologia de Tolkien

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